Sunday, November 27, 2005

Concerto Coldplay + Goldfrapp - Pavilhão Atlântico


Por incrível que pareça em apenas dois anos os Coldplay passaram de banda popular a um sucesso à escala quase planetária, tendo finalmente conquistado aquele mercado que os músicos europeus esperam alcançar mas muito raramente conseguem: a América. Depois da leg europeia desta Twisted Logic Tour vão rumar novamente aos Estados Unidos numa série de espectáculos ainda mais exaustiva que a anterior.
Pode-se chamar um fenómeno mas a realidade é que os Coldplay já triunfam na Europa há muitos anos. O público europeu foi vendo a popularidade da banda crescer, os sítios onde tocam a ficarem cada vez maiores e a invadirem todas as televisões e estações de rádio.
E é a propósito do último trabalho, denominado X&Y, que os Coldplay se voltam a apresentar em Lisboa, no mesmo mês em que actuaram nos MTV European Music Awards e dois anos depois da primeira passagem pelo Pavilhão Atlântico. A ovação esperada deu-se logo à entrada no palco de John Buckman, Will Champion, Guy Berryman e Chris Martin. Um concerto esgotado em menos de um mês e um público aparentemente mais jovem. Profissionalismo será a primeira palavra que surge para descrever a atitude da banda ao vivo, com um virtuosismo evidente de todos os elementos, que em dois anos de estrada parecem ter ganho a experiência de uma década de concertos. Profissionais até nas alturas mais complicadas aquando do surgimento de uma série de problemas técnicos. Nada de grave... um pouco de improviso e a dificuldade é rapidamente transposta. X&Y foi obviamente o álbum mais visitado, que na sua ligeira superioridade ao anterior A Rush of Blood to the Head, ganhou no registo ao vivo, algo que acaba por acontecer com quase todas as canções de Coldplay, como se tivessem sido construídas para os grandes concertos.
Começam com as canções que abrem os dois últimos álbuns, Square One e Politik seguidas de Yellow, um dos maiores hinos da banda, plena de uma adrenalina “interiorizada” tão característica do rock britânico. Um dos momentos altos do concerto bem como uma versão acústica de Til Kingdom Come e a alusão a Johnny Cash em The Ring of Fire, a arrebatadora The Scientist, o final derradeiro de Fix You e aquele que foi o instante mais vertiginoso da noite em Talk, o novo single da banda, que viu Chris Martin aparecer do outro lado do Pavilhão Atlântico junto das bancadas centrais. Sempre afável e comunicativo num português ensaiado mas eficaz. Um grande concerto sem dúvida alguma. Mas perdeu em relação ao anterior por um motivo muito simples: a escassez evidente de Parachutes, que continua a ser indiscutivelmente o mais brilhante e inspirado álbum da banda. Não tivemos Spies ou Shiver ou Don’t Panic e nem mesmo Trouble figurou, aquele que foi o primeiro grande êxito dos Coldplay. É certo que o objectivo é olhar em frente e há que louva-los por isso mas a realidade é que aqueles ou outros temas de Parachutes elevariam o concerto ao patamar imposto pela anterior passagem da banda a Portugal.


Square One - Politik - Yellow - Speed of Sound - God Put a Smile Upon Your Face - X&Y - How You See the World - White Shadows - The Scientist - Til Kingdom Come - Ring of Fire (Johnny Cash) - Green Yes - Clocks - Talk - (encore) - Swallowed in the Sea - In My Place - Fix You

A fazer a primeira parte estiveram os Goldfrapp... estranha escolha de Chris Martin para abrir o seu espectáculo tanto pela disparidade de estilos musicais como pela estatura que a banda de Alison Goldfrapp e Will Gregory já possui. Mas a realidade é que a tourné americana terá Fiona Apple como abertura por isso se calhar há que reflectir novamente na crescente mediatização dos Coldplay.
Como era de esperar não haviam muitos fãs da banda – também britânica - no Pavilhão Atlântico, até porque quando foi anunciada a primeira parte o concerto já se encontrava esgotado. Mas não foi por isso que a coruscante Alison, portadora de uma voz avassaladora e um theremin perversamente maleável, deixou de conquistar até os mais cépticos. O glamour electro-pop dos Goldfrapp arrasou o público lisboeta, iniciando a apresentação com Train de Black Cherry, cujas batidas sujas e sensuais – compassadas por um ofuscante espectáculo de luz - ganham nova alma ao vivo, auxiliadas por uma surpreendentemente bem orquestrada guitarra eléctrica, que projecta o som dos Goldfrapp para um prazer ainda mais eléctrico e reminescente do glam-rock. Felt Mountain, um dos mais brilhantes discos lançados nos últimos cinco anos, ficou de fora mas a sexualidade espampanante de Black Cherry – que voltaram a revisitar na pós-coital faixa homónima e na esplendorosamente extravagante Strict Machine - e o eclectismo pop electrónico do novo Supernature, brilhando mais alto em Ride a White Horse e Number 1, foram mais que suficientes para nos deixar ansiosos para um concerto em nome próprio. Terminando com o tema mais recente e popular da banda, Ooh La La, que deixou todo a Sala Atlântico a cantar e dançar, Alison abandonou o palco visivelmente satisfeita. Pode ser que inclua Portugal na tourné europeia de 2006... Cá ficamos a rezar para que tal aconteça.

Train - Number 1 - U Never Know - Black Cherry - Ride a White Horse - Strict Machine - Ooh La La

Saturday, November 26, 2005

Arcade Fire & David Bowie - Live EP

O iTunes cresce e cresce e cresce. Cada vez mais as pessoas habituam-se a fazer downloads legais deste programa revolucionário que em conjunção com os iPods está a conquistar o mundo. As vendas já são tão significativas que a maior parte dos países já as inclui nas suas tabelas reais de vendas. Mais prático, mais rápido e acima de tudo sem ter de se ficar com aquele ligeiro mas palpável peso na consciência por estar a “quebrar a lei”. É neste âmbito que surge um live ep da mais promissora banda do momento e de um dos ícones maiores da cultura pop, que conseguiu destronar em Portugal outro ícone do topo das tabelas: Madonna. Arcade Fire e David Bowie juntaram-se para uma actuação ao vivo no programa Fashion Rocks e o interesse – natural – gerado por esta colaboração única foi tão grande que decidiram lança-la em forma de EP no iTunes.
O alinhamento de apenas três temas inclui dois de Bowie e um dos Arcade Fire. Começa com um dos hinos maiores de Bowie, a incomparável Life on Mars? numa versão algo despida do tema, apenas acompanhada ao piano, dando-lhe uma sonoridade reminescente de cabarets do inicio do século passado. Um verdadeiro colosso que lembrará os mais esquecidos da genialidade das composições do autor. Segue-se o melhor tema de Funeral... Wake Up numa fulgurante, cheia e operática actuação cantada em jeito de dueto e culminando num magnifico e arrebatador final. Para finalizar mais um tema de Bowie, acompanhado novamente pelo som peculiar e refrescante dos Arcade Fire numa re-invenção de uma canção do velhinho e emblemático The Rise and Fall of Ziggy Stardust.
Este LIVE EP é extremamente conciso, ao ponto de nos levar imediatamente a atacar a discografia de Bowie e aquele que muitos consideram o álbum do ano. E enquanto dura é tudo aquilo que promete ser. A não perder.
9/10

Concerto Sigur Rós - Coliseu de Lisboa, 20 Novembro 2005

A noite de 20 de Novembro por muitos era aguardada com grande expectativa. Para uns era um reencontro com uma banda que há uns anos pisara o mesmo Coliseu, para outros, como eu, era a primeira experiência ao vivo do universo dos Sigur Rós.
A primeira parte do concerto esteve a cargo de quatro raparigas conterrâneas da banda principal, as Amina. Com instrumentos tão originais como caixinhas de músicas, violinos, serrotes, pianos, cordas, copos, etc, a banda foi uma agradável surpresa para quem as ouviu. As suas melodias doces e surpreendentes foram como um aperitivo para a música que se seguiria.
Os Sigur Rós entraram em palco e através das suas sombras ouvimo-los e vimo-los a tocar “Glósóli”, a faixa de abertura do último álbum. Com jogos de luzes fantásticos que mudavam a cada de música e com um ecrã que passava de tempos a tempos imagens tão enigmáticas como a própria música, os Sigur Rós fizeram com que toda a audiência ficasse rendida às suas melodias densas, idílicas e originais.
A voz do vocalista Jónsi Birgisson é surpreendentemente arrepiante ao vivo e parece entrar nos ouvidos e mexer com todos os nossos sentidos. Se aquelas músicas já quando ouvidas em cd no conforto das nossa casas têm a capacidade de nos fazer sentir e sonhar, ao vivo as emoções são ainda maiores.
O repertório do concerto centrou-se sobretudo em músicas do recente “Takk” mas o encore foi deixado a cargo da poderosíssima “Untitled #8”, música que encerra o álbum “ ( )” .
O concerto foi tão bom ou melhor do que se esperava. Os Sigur Rós consagraram-se de vez entre nós e o seu profissionalismo e alma sentem-se nas suas músicas que ao vivo ganham uma aura ainda maior e mais misteriosa.
Os Sigur Rós e as Amina (que aliás tocaram com eles) vieram ao palco agradecer duas vezes. Mas somos nós que lhes temos de agradecer por nos darem momentos e músicas tão especiais com a capacidade de nos hipnotizar. Takk.

Saturday, November 19, 2005

Hell is for heroes- The neon handshake (2003)



Primeira pergunta a fazer: Quem são estes tipos que pouca gente deve conhecer? A verdade é que coisas sobre os hell is for heroes não pululam por aí como festas chique nas revistas cor de rosa, ou como sobreiros numa qualquer planície alentejana. No entanto, ainda se vão sabendo umas coisas. Por exemplo que eles são sete (ou pelo menos eram quando editaram este disco) e que têm como alojamento fixo as ilhas britânicas, mais propriamente Londres. Ah, e que este "the neon handshake" é o primeiro de dois discos da banda: Já este ano, editaram "transmit disrupt" que foi alvo de um concerto em Portugal no club lua, há coisa de um mês, com os portugas twenty inch burial e easyway a abrirem(e mais uma banda britânica cujo nome não me recordo). Esta foi a segunda visita da banda a Portugal, já que no ano de lançamento deste primeiro disco, apareceram por cá no coliseu, para serem a banda de abertura dos papa roach.

Ok, e agora disse este nome, vai-me já cair tudo em cima: Ora, para desmistificar qualquer dúvida que possa surgir, os hell is for heroes, pouco têm a ver com os papa roach. Enquanto estes segundos fazem um rock ainda com algumas variações de nu-metal, pouco inventivo, demasiado preso a clichés amorosos e afins, os hell is for heroes, traduzem-se por um rock musculado, de contornos quase épicos, que lhes dão um tom saborosamente negro. Rock, com alguns laivos de emo pela voz é certo, mas acima de tudo com algum peso à mistura.

E, afinal de contas, o que é este "The neon handshake"? Porque é que raio um disco de 2003 é aqui introduzido, em vez de estarmos a falar do novo disco da banda? Primeiro porque, apesar de o ter por aqui, ainda não ouvi em condições "transmit disrupt". E depois porque "the neon handshake" é o futuro de qualquer coisa, uma porta que se abre(um pouco como está na capa do disco), um disco intensíssimo ,tanto pelo peso das guitarras, como pela emotividade da voz, passando pelas letras, bem mais profundas do que é costume, mas acima de tudo pela capacidade inata de produzir grandes canções.

Porque "The neon handshake" é basicamente isso: Um disco de grandes, grandes canções. Que se integram perfeitamente umas nas outras, que se interlaçam como irmãs siameses para não se largarem. Entre a abertura mecânica de "Five kids go" que depois desagua num refrão extremamente intenso e de contornos épicos, passando pelo segundo tema "out of sight" que é uma pérola auditiva (especialmente devido às fantásticas variações ambientais que conseguem ser criadas, passando de acalmia a raiva de uma maneira fabulosa). Indo também a "cut down" uma das músicas mais rockeiras do disco, com um refrão estonteante, a "few against many", tema todo ele extremamente emotivo, e rico em diferentes tipos de abordagem musical (atestar no início do tema por exemplo). E quem diz estes temas diz "I can climb moutains", provavelmente a melhor canção deste disco, tanto pela força que possui, pelo refrão extremamente contagiante, ou pela abordagem vocal do tema. È realmente uma autêntica força da natureza esta faixa sete do disco. Um tema épico, sofredor, intenso, pesado, contagiante, forte. Muito forte mesmo, não de uma maneira crua, mas subliminarmente.

De qualquer maneira falar apenas e só de rock, ou de emo, ou de peso, é muito mas muito redutor em relação ao disco. Se, para um ouvinte como eu, isso chegava e sobrava, a verdade é que para quem se dá menos com este tipo de sonoridades tem na excelente "retreat" uma grande aposta. È talvez o tema menos pesado,possuindo uma uniformidade instrumental que acarreta em toda a sua extensão, ainda assim consegue ter um peso emocional igual às suas antecessoras. Talvez até possa soar estranho para um disco de rock com laivos de emo (estando muito longe de emocore ou algo do género), no entanto não me parece mais apropriado um fecho de luxo como este. Até porque "transmit disrupt" assim o confirma.

Bom, mas até me dói o coração não falar da genial "Disconnector" com a sua abertura leve, para depois passar a um tema feito de raiva e ira, com uma parte instrumental fabulosa. Ou por "You drove me to it" uma canção que tem um refrão super cola 3, para além de ser um belo tema de rock. Por "slow song", talvez o tema mais bonito de todo o álbum. Começa calmamente, levemente, com sussurros, tanto vocais como instrumentais, a preencherem os nossos ouvidos, para depois se transformar num épico gigantesco cheio de peso e intensidade.

Bem, e posto isto apercebo-me que falei das canções quase todas faltando, salvo erro "Night vision","Three of clubs" e "Sick happy": Três temas que não foram referidos, não por falta de qualidade, mas porque também deve fartar aos olhos mais sensíveis estar a ler uma crítica que já vai longa. E logo sobre o raio de uma banda pouco conhecida.

Fazendo agora uma espécia de súmula àquilo que este escriba andou para aqui a proclamar: "The neon handshake" é, de facto, um disco fantástico. Pode-se não gostar do género, não gostar da voz, dos instrumentos, da capa, das letras, do peso existente em quase todas as faixas, do epicismo existente em grande parte das canções. Até se podem odiar as mães deles e os pais, por terem feito a banda. Agora uma coisa é certa e inequívoca: "The neon handshake" é inabalável enquanto disco de rock que é. Porquê? Porque não se enquadra em nenhum subgénero do rock.Porque não farta a audição. E, acima de tudo porque cada tema é um mundo a descobrir. Não existem pontos mortos, não existem canções nem a mais nem a menos. E, ainda por cima, num sentido de uniformidade e homogeneidade como há muito o rock mais pesado não via.

Dentro dos media mais especializados este álbum foi muito bem recebido. Alguns críticos da Loud! deram-lhe lugar destacado nas tabelas de melhores de 2003, bem como aconteceu nas ihas britânicas. E, sim, dentro de uma certa parcela musical existiu algum hype em torno da banda. E, apesar de "transmit disrupt" ter passado mais despercebido, a verdade é que este "the neon handshake" canoniza desde já um grupo que ainda tem muito para crescer. Sim, esta frase pode parecer demasiado bombástica, mas a verdade é que "The neon handshake" é, para mim, um clássico do rock dos tempos modernos. Se muitas bandas de rock fossem beber influências a este disco, talvez o panorama musical mundial fosse bem mais risonho. E daí talvez não: Cada banda deve ser única, e os hell is for heroes provaram-nos isso mesmo com um disco destes. Se agora só fizerem erros musicais, uns atrás dos outros, sempre podemos pegar neste primeiro disco e dizer "Pelo menos eles já foram geniais. e logo à primeira tentativa".

9/10

Sunday, November 13, 2005

David Fonseca - Our Hearts Will Beat As One

Na passada sexta-feira David Fonseca e a sua banda apresentaram-se no Centro Cultural Olga Cadaval para dar arranque à tourné dedicada ao seu mais recente disco e o segundo a solo: Our Hearts Will Beat as One. Num cenário minimalista composto por diversas pinturas paisagísticas e uma bola de espelhos isolada, o cantor fez a primeira mostra das músicas que compõe um novo virar de página na carreira de David Fonseca, principalmente enquanto autor.
Com casa cheia começou-se por ouvir Bu_urn e depois seguindo mais ou menos o alinhamento do álbum, com Swim e Who Are You? As sonoridades do registo em estúdio mostravam-se já mais plenas e prazerosamente ressonantes, mas foi a partir de uma actuação fogosa de Cold Heart que o espectáculo verdadeiramente teve início. A voz do natural de Leiria ecoava pela sala mostrando uma vulnerabilidade na qual assenta este belíssimo tema, magistralmente acompanhado pela banda que o irá auxiliar nesta segunda viagem, que inclui também um companheiro dos Humanos – o baterista Sérgio Nascimento. Segue-se o dueto com Rita em Hold Still, teclista, um dos momentos altos do disco para centenas de pessoas, que ganha um estatuto ainda mais intimista ao vivo.
Todo concerto foi marcado por uma coesão notável, apenas interrompida pela intervenção inoportuna de um indivíduo que decidiu atender o telemóvel a meio de The Longest Road e depois gritar vigorosamente com as pessoas que desdenharam de tão nobre acção, incluindo o próprio David que demonstrou já uma grande experiência com tais afortunados acontecimentos e acabou por silenciá-lo com algumas respostas sarcásticas mais que merecidas.
Our Hearts Will Beat As One e Come Into My Heart animaram as hostes, intercaladas por uma interpretação fulgurante de Adeus, Não Afastes os Teus Olhos dos Meus, um tema que promete ser dos mais emblemáticos da sua carreira. Para além do seu repertório a solo, revisitando Someone that Cannot Love, U Believe Me e a ardente The 80’s, transformou dois temas dos Silence 4, To Give e Angel. Para enquadrar ainda melhor o tema do espectáculo, resgatou algumas músicas da sua formação musical, incluindo Let's Stick Together dos Roxy Music e uma tocante versão de Song to the Siren de Tim Buckley, na tradução dos This Mortal Coil
A postura de David Fonseca em palco é a mesma que sempre foi, honesta e crua, mas cada vez mais demonstrando uma espontaneidade e liberdade inexistentes nos já longínquos tempos dos Silence 4. Mais um passo em frente para aquele que já é um dos mais influentes músicos portugueses da actualidade.

OUR HEARTS WILL BEAT AS ONE

Depois do esperado sucesso de Sing Me Something New, um brilhante disco de “estreia” apoiado por êxitos de rádio, principalmente na refulgente The 80’s, a prova de fogo viria com o segundo álbum que chegaria dois anos depois e não mais cedo devido à sua incursão num dos mais excelsos projectos musicais que Portugal já viu: os Humanos, juntando-se a Manuela Azevedo e Camané para reinventarem António Variações. Our Hearts Will Beat As One teve o seu primeira aceno no single Who Are You? que parecia querer fazer a ponte entre os dois trabalhos. Por algum motivo é o tema de abertura do álbum com David Fonseca como que a exorcizar a ausência, demarcada por sonorizações etéreas a elevarem este simples balada a um nível superior.
Superioridade que se sente ao longo de todo o álbum. Não comprometendo a sua identidade musical, o cantor, músico e autor sofreu uma notável maturação em todos os espectros do seu talento. A composição é mais ousada e dada a experimentalismos dos quais até então se tinha refreado de alguma maneira. O carácter mais melódico e soturno da sua música continua intacto em Swim, Hold Still e na trovadoresca The Longest Road, mas com uma projecção muito maior da sua marca enquanto músico. E por outro lado entrega temas de puro extâse de rock progressivo dos anos 80 e inicio dos anos 90, como as fisicamente extenuantes Our Hearts Will Beat As One e Come Into My Heart, chegando até a tocar levemente nas primordiais origens do grunge.
Contudo o mais surpreendente é a capacidade de descobrir uma nova forma de apresentação, um meio termo encontrado com sumptuosidade em Cold Heart e na desconcertante e derradeira faixa deste trabalho, Adeus, Não Afastes Os Teus Olhos dos Meus, em que David Fonseca parece encontrar o lugar em que se sente mais confortável e verdadeiro, deixando assim uma pequena amostra do que ainda está para vir. E se a evolução for contínuo, no próximo álbum poderemos encontrar uma das mais significativas obras da música portuguesa contemporânea.
8/10

Saturday, November 12, 2005

Estreia: Bassliners

Blog de música (em construção)